Hoje é Terça, 12 de Dezembro de 2017

A FORMATURA

Na Capoeira Regional existem acontecimentos que são comemorados com festa, entre eles, o mais importante para mim é o ritual da formatura. Neste dia, a academia fica aberta à visita do público e a outros grupos de capoeira. A minha formatura foi realizada no dia 14 de junho de 1981, no bairro do Nordeste de Amaralina, em Salvador.

A semana que antecedia a data da formatura, a academia passava a ser mais frequentada: alunos sumidos faziam-se presentes e aqueles que pouco treinavam, passavam a treinar mais. Nesses dias eram intensificados os treinamentos. Toda a academia vivia um clima de festa e de expectativas, os formandos eram os mais exigidos pelo mestre. No dia da formatura todos devem estar bem preparados para apresentar ao público os ensinamentos do mestre. Aos formandos cabia neste dia fazer as sequências básicas da Capoeira Regional, a cintura desprezada, o jogo de floreio, o jogo de esquete e o jogo do desafio, no tira medalha.

A essa altura o mestre Bráz já tinha providenciado os convites, notas em jornais, a medalha gravada (diploma), faixa e lenço de seda azul (graduação), fabricada a cachaça mulher barbada (bebida criada pelo mestre Bimba, uma tradição nos batizados e formaturas da Capoeira Regional), além de preparar um grupo de alunos formados para apresentação do maculelê.

A formatura iria iniciar às 15:00 horas, mas os alunos da casa chegavam pela manhã, faziam os últimos ensaios para logo mais à tarde. Meus colegas de formatura foram: Armando Lisbóa da Silva (Bolão), José de Jesus Araújo (Tucano) e Cícero João da Silva (Alagoas). Este último foi meu parceiro no jogo de floreio e de esquete.

A academia tinha na frente um salão onde eram realizadas as aulas matinais nos domingos. E em cima desta sala  funcionava a sede da Banda Filarmônica do Nordeste de Amaralina, e ao fundo um grande pátio a céu aberto que, através de uma escada de cimento, dava acesso ao primeiro andar. As festas de formaturas eram feitas nesse pátio. Fazia-se um cercado de corda (ringue) e em sua volta eram colocadas cadeiras para os convidados. Um fato interessante era que o mestre Bráz mandava uma das suas filhas menores fotografar todos os capoeiristas de fora que estavam presentes. Ele dizia: “tendo qualquer confusão, através destas fotos todos os elementos envolvidos serão identificados”. O mestre era muito desconfiado e cheio de truques.

Já na hora da formatura, no meio do ringue o mestre Bráz, todo de branco, fazia soar seu apito, dando início às formalidades: “Atenção, com a palavra o orador”. Geralmente, um aluno mais velho ou um colega do mestre, que iria falar sobre a Capoeira Regional, sobre o mestre Bimba e o significado daquele evento. Após o discurso do orador, o mestre pedia uma salva de palmas e se apresentava: “Pra quem não me conhece mestre Bráz sou eu, sessenta e um anos (na época), pai de dezesseis filhos (hoje dezenove), não sei quantos netos e tantos bisnetos. Esse esporte veio da raça negra, e o negro como sou eu e outros negros estam cultivando aquilo que é seu. Vou dar início logo ao meu trabalho sobre maculelê, é uma luta de cacete, pra daí surgir a luta de faca, revólver, tudo que o mestre Bráz ensina. Mas quando tem que morrer, na terra não tem sabido”. Daí, o mestre disparava com muitas histórias, cheio de malandragens. Prendia a atenção de todos.

Ouvia-se outro apito e a atenção do público agora voltava-se  para o primeiro andar da sede, onde passava-se a ouvir um compassado bater de paus e logo apareceu na escada um grupo de alunos que vão apresentar o maculelê. O mestre puxava um canto apropriado para a dança/luta de pau, e os pares vão-se formando e a luta se desenvolvendo.

Após o maculelê, o mestre Bráz chamava os alunos que iriam se formar e pedindo os golpes, mandando fazer as sequências e a cintura desprezada (sequência de balões), e dizia: “O aluno para se formar precisa passar por tudo isso, porque se ele briga e tem nervo controlado, ele tem que suportar tudo isso, uma certa vez vi elemento formado e na hora pra escrever deu uma tremedeira na mão e tomou pau no curso. Então viu, através do conhecimento do finado mestre Bimba, foram criados na Capoeira Regional o batizado e a formatura. Ele morreu e eu como aluno dele..., fiquei vinte e um anos com ele. Fiquei com essa doutrina e venho dando seguimento e estou sendo aprovado até hoje”...

Após muitas explicações o mestre Bráz chamava as madrinhas dos formandos para que fossem colocadas as medalhas, lenços e faixas. Nesse momento, o mestre autorizava a orquestra a tocar, enquanto ele cantava e os alunos batiam palmas e faziam o coro. De vez em quando, ele apontava: “você e você”, e formavam-se os pares para o jogo da capoeira. Quando achava que já tinha dado o clima de luta ao ambiente, ele parava o jogo e chamava os formandos em dupla para que fizessem o jogo do floreio e do esquete. Quando terminava a apresentação, o mestre gritava: “Atenção, atenção, apareçam agora os desafiantes, que meus alunos estão aqui. Vêm ver se é mole, se vocês vão pegar eles de mão beijada, há, há, há, há. Essa era a hora do tira medalha, a prova de fogo dos formandos. Consiste em um desafio feito por alunos formados e mais experientes de dentro ou de fora da academia. O objetivo do desafiante é tirar com um golpe aplicado com o pé a medalha do peito do formando, se isso acontecesse, ele não se formaria. Por esse motivo, o jogo era violento, um jogo fechado, de pancadaria. O formado ia defender sua medalha e sua honra e aos desafiantes cabiam mostrar que eram mais experientes (pé dentro, pé fora, quem tiver o pé pequeno que caia fora).

A formatura é um ritual criado pelo Mestre Bimba para a Capoeira Regional. Consiste na entrega da graduação (lenço azul) e do diploma (medalha gravada). Neste dia o aluno formando, alem de demonstrar os conhecimentos adquiridos, onde o mestre solicita apresentação de golpes, seqüências e cintura. Deverá fazer três estilos de jogos: no toque de Benguela (jogo do floreio), de São Bento Grande ( jogo do tira medalha, desafio) e Iuna (jogo do esquete, onde é introduzido os balões).
Hoje essa formalidade passou a fazer parte de todos os grupos de capoeira.

Mestre Portugal
(Formado e especializado em Capoeira Regional pelo mestre Bráz)